Amarone Valpolicella Clássico DOC
Tinto 1998
Revista Forbes Brasil 22/08/2007 - Coluna
Gastronomia
O clássico Amarone em cinco décadas
Com um método de
vinificação peculiar e traduzindo um terroir especial o Amarone é a falha que
deu certo.
Suculento, frutado, complexo e com toques marcantes de uva muito
madura (uvas passificadas), o Amarone della Vapolicella justifica sua fama. Mas
nem sempre todas essas características foram cultuadas como são hoje. Antes da
Segunda Guerra Mundial esse mesmo vinho era considerado uma falha. Deveria ser
um vinho doce e, como tinha inadvertidamente todo seu açúcar fermentado e
convertido em álcool, virava um vinho seco. Só mais tarde essa falha original
transformou-se no seu maior trunfo.
O vinho Amarone della Valpolicella na
maioria das vezes tem a denominação "Clássico" no rótulo. E ele é mesmo
clássico, delicioso e único. O Amarone consegue reunir fãs ao redor do mundo, e
alguns brasileiros em particular viveram momentos felizes no ultimo mês de
julho. Uma degustação foi realizada em São Paulo de cinco décadas de um dos mais
tradicionais produtores de Amarone, a Casa Bertani. É difícil ter uma degustação
de varias safras de um mesmo vinho tão especial. Antigas e novas lado a lado,
incluindo o primeiro Amarone lançado pela Casa Bertani. É difícil ter uma
degustação de várias safras de um mesmo vinho tão especial. Antigas e novas lado
a lado, incluindo o primeiro Amarone lançado pela Casa Bertani. Isso mostra o
prestígio do mercado brasileiro, fato que tenho relatado sempre nesta coluna.
O Amarone della Vapolicella é um vinho que muitos tentariam imitar, mas a
tarefa é quase impossível. Realmente é um vinho que parece só ter a capacidade
de ser produzido em um especifico espaço de terra; no casco, ao norte da Itália,
as cercanias da linda Verona, mais precisamente nas comunas de Negrar, Fumane e
Sant Ambrogio.
As Uvas desse fenômeno e intrigante vinho - três variedades -
são autóctones da região de Vapolicella (denominação de origem que reúne as
comunas citadas acima). São elas: a especial Corvina (a espinha dorsal dos
Amarone), a Rondinella e a Molinara. Esta última uva, antes obrigatória no blend
do Amarone, passou a ser opcional em 2003, porque e uma uva sem grandes
características e que não intervém significativamente no blend final.
Além
das uvas, outros pontos decisivos na produção do Amarone são: o processo de
produção e a incrível influência que o conjunto de clima e solo (terroir) tem
nesse vinho.
Até a colheita das uvas tudo é semelhante a qualquer vinho, mas
a partir daí entra em cena o processo e o terroir, responsável por fazer do
Amarone um vinho único. Pois bem, após a colheita, quando as uvas estão maduras,
elas seguem para galpões fechados, onde são colocadas em uma espécie de esteira
horizontal com o objetivo de iniciar o apassimento (processo de "passificação"
de secagem natural das uvas). Esse processo é exatamente o que o nome em
italiano no induz a pensar. As uvas permanecem nesses galpões fechados, porém
com janelas grandes abertas (que propiciam boa ventilação), desde o final de
novembro até fevereiro/março do ano seguinte. Passam grande parte do inverno
sendo "passificadas", o que faz com que as uvas percam líquido. Ao perder grande
parte do líquido (o peso reduz a 2/3 do peso original das uvas), ocorre uma
clara concentração de açúcar nessas uvas, que, ao final desses três meses de
inverno rigoroso, seguem para a fermentação.
O Amarone Clássico é seco, por
isso tem sempre uma marcante graduação alcoólica, nunca menor que 15º, devido à
alta concentração obtida no processo de apassimento, que se transforma em álcool
durante a fermentação. Vale ressaltar que também temos um delicioso vinho doce
denominado Recioto della Vapolicella que tem um processo semelhante ao do seco
Amarone Clássico.
Na degustação realizada em São Paulo tivemos vinhos Amarone
representando cinco décadas: a de 50 com o 1959, o mais antigo da prova e o
primeiro produzido pelo Bertani; a de 60 teve três representantes: o 1964, o
1967, e o 1968; a década de 70 teve o 1978; a de 80 com o 1985; e por ultimo a
década de 90 com dois representantes o 1995 e o 1998, totalizando oito vinhos
degustados.
Se o Amarone é único, vocês podem imaginar o que representa essa
diversidade de safras: do que esta beirando 50 anos de vida ao que nem 10 anos
completou. A prova foi conduzida começando dos mais novos, para os mais velhos,
o que mostra a força que esses vinhos possuem. Ah! Vale ressaltar que todas as
safras referidas estão entre as melhores para Amarone nas respectivas décadas.
Das oito safras degustadas, a única a não ter a classificação máxima de cinco
estrela pelo produtor Bertani foi a de 1978, que recebeu 4 estrela.
O 1998
servido de uma garrafa magnum estava bem alcoólico com um buquê bem fechado,
talvez um prenunciode que esse vinho melhore com o tempo. O 1995 estava com
excelente carga de frutas no nariz (lembrava uma geléia de framboesa), com
toques de especiarias (sálvia). Um vinho alegre e vigoroso, com álcool na
medida. Delicioso na boca, com um belo final. O 1985 estava já com uma cor mais
clara que os irmãos mais novos. Seus aromas estavam deliciosos, com marcantes
toques florais. Até aquele momento era o melhor degustado. Mas não acredito que
tenha muito mais vida pela frente, o que me levou a uma certa preocupação, pois
vinhos mais antigos estavam por vir. O 1978 estava muito bom, mas um pouco atrás
na avaliação se comparado com o 1995 e o 1985.
Após essa seqüência chegavam
os representantes da década de 60. A briga foi boa para o segundo lugar entre os
excelentes 67 e 68, com vantagens para 68, que estava com uma cor bem
"atijolada", aromas deliciosos de frutas vermelhas maduras e toques florais. No
palato mostrou incrível equilíbrio. O 1964 foi o grande campeão da década de 60,
apresentando também uma cor rubi-claro, com muita ameixa e morango no nariz. Um
vinho com muita profundidade, apesar de seus 43 anos de vida. Uma grande
experiência. O raríssimo Bertani 1959 perdeu por um ponto (indiscutivelmente o
segundo melhor) para seu irmão mais novo 1964, que além de ser o melhor da
década de 60 ganhou também o titulo de melhor da noite. O 1959 mostrou para
todos os presentes o que é um vinho de qualidade com quase 50 anos de idade.
Delicioso, marcante, e que deu a sensação de estarmos degustando o vinho no pico
de sua maturidade. Resta desejar que mais "aulas" como essas aconteçam em terras
brasileiras. Para quem pretende provar um Amarone, temos no Brasil, além do
produtor Bertani, os mais destacados produtores da região de Vapolicella, como
Allegrini, Masi, Seregho, Alighieri, Le Ragose, Quintarelli, dentre outros.
Provar um Amarone é uma experiência incrível, especial e realmente única... E
prepare-se para uma explosão de aromas de uvas passas no nariz e uma "boca"
cheia seguida de persistência quase infinita. É uma emoção a ida com um
Amarone!